• Dani Ortiz

Visibilidade Radical - brasileira usa voz na luta pela igualdade em manifestação anti-racismo em NY

Updated: Jun 11

Nessas últimas semanas fomos surpreendidas com a trágica morte de George Floyd e a repercussão que foi gerada desse triste acontecimento. Milhares de pessoas foram às ruas de várias cidades do mundo protestando contra o racismo e as injustiças que insistem em tomar conta da nossa sociedade.


No meio dessa multidão estava Antonia de Mello, brasileira de mãe negra e pai branco, que guardava também, entalada em sua garganta, a morte do menino João Pedro, que foi baleado durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Rio de Janeiro e vários acontecimentos que marcam a triste realidade de uma sociedade que tem como característica o racismo intrínseco.


Garra se deparou com esse vídeo que postamos aqui embaixo. Emocionadas e orgulhosas, fomos atrás dessa brasileira cheia de garra e graças a nossa gerente de mídia, Lívia Paula, a encontramos.


Antonia tem uma clareza de pensamentos e uma maneira muito linda de expressar como se sente. Por favor, assistam esse vídeo e leiam até o final essa entrevista exclusiva que fizemos com Antonia. Aprendemos muito com ela.



O que te inspirou a participar do protesto naquele dia? Você já trabalhava ou voluntariava em prol da justiça social?


Antonia de Mello: Eu já participava de protestos há alguns anos. Durante o ensino médio lembro de ter ido a algumas marchas pelas mulheres, fui também a outros protestos do movimento BLM [Black Lives Matter] e também tive o prazer de participar na marcha por Marielle Franco que aconteceu aqui em NY. Quando os protestos em resposta ao assassinato de George Floyd começaram, foi natural eu ir a todos que consegui. O protesto do vídeo aconteceu no Astoria Park que é na frente da minha casa, minha comunidade. Era quase que uma obrigação ir e levar todos que eu conseguisse.


Como você se sentiu em falar alto em público? Tinha receio? De onde vinha o receio: preocupada com a reação da polícia? Preocupada com seu status imigratório? Preocupada com a perspectiva de sua família?


Antonia de Mello: Eu nunca tinha falado em público pra tanta gente antes, muito menos em inglês. Na hora do protesto as histórias sendo contadas e a união dos manifestantes ali presentes era tão contagiante que eu não tive muito tempo pra pensar sobre o possível impacto de dar um discurso sobre brutalidade policial. O meu receio maior no momento era mesmo medo de não ser meu lugar de fala e de eu estar tirando espaço de outra história que deveria ser contada. Eu também estava com muita vergonha, eu cheguei até a rezar e pedir que outra pessoa ali presente falasse sobre o João Pedro e sobre a falta de policiamento daquela manifestação que era majoritariamente composta por pessoas brancas. O medo sobre retaliação e ser possivelmente perseguida pela polícia pelo vídeo só veio depois que o vídeo viralizou. Depois de tanta gente ouvir o meu discurso a minha família ficou muito preocupada, orgulhosa mas preocupada.


Como você venceu o receio? Você se sentiu apoiada pelos outros manifestantes?


Antonia de Mello: Na verdade o receio não foi vencido, eu fui receosa mesmo. Minha família estava comigo no dia da manifestação isso me trouxe conforto, e eu senti quase que um impulso de “eu tenho que falar isso agora, eu não posso voltar pra casa com tudo isso entalado na garganta.” Esse medo foi mais forte que todo o meu receio e vergonha. O apoio de outros manifestantes ali presentes foi fundamental. Eu lembro que quando chegou na minha vez de falar eu dei minha vez pra outras 5 pessoas até que uma dessas pessoas me chamou para o centro da roda. A atitude dessa manifestante foi quase um chamado “vem fala, a gente quer te ouvir.” Eu não podia deixar meu medo ser mais forte que uma demonstração de amor dessas.


Você foi firme em mostrar seu apoio à comunidade negra, e reconhecer seu privilégio e seu lugar de fala. Você vê o racismo sistêmico como algo que te afeta também?


Antonia de Mello: Bom, eu sou parte da comunidade negra. Como eu disse no vídeo eu sou brasileira, minha mãe é negra e meu pai é branco. No brasil eu cresci me entendendo como “pardo” ou “morena”, foi só quando eu cheguei aqui e depois de me aproximar da comunidade negra daqui que eu entendi as questões de colorismo, e como no nosso país a nossa cultura afasta pessoas negras da sua identidade. Aqui nos estados unidos eu não sou uma terceira categoria entre branco e negro. Eu sou branca e sou negra do mesmo jeito que sou latina. Isso me possibilitou resgatar a minha própria voz e história com os meus antepassados. O meu privilégio por ter a pele clara é inegável, mas isso não apaga o fato de que racismo ainda me afeta. A minha perda de identidade com a minha Raça é evidência disso. No Brasil desde a época da abolição várias políticas de estado foram feitas para o embranquecimento do nosso povo, essa perda de identidade do nosso povo negro foi calculada e planejada pelo Estado. Isso é só um exemplo específico do racismo sistemático me afetando. Mas a verdade é que o racismo afeta todos nós. Evidente que certos grupos privilegiados não sofrem racismo, mas a nossa sociedade como um todo é afetada pelo racismo. O racismo não é uma questão da comunidade negra, ele é uma questão global, ele é parte de todas as nossas vidas. Quantos cientistas, médicos, inventores, artistas, escritores e talentos nós não perdemos porque o racismo impediu que um grupo inteiro de pessoas ocupassem espaços e tivessem voz? A gente pode se iludir dizendo que os melhores sempre chegarão lá, mas se você subir uma favela no Rio de Janeiro o que você mais vai ver é talento sufocado. A juventude negra é brilhante e enquanto eles não tiverem espaço para espalhar sua luz, todos nós estamos perdendo.


Qual o seu conselho para uma pessoa que gostaria de participar das manifestações mas tem receio?


Antonia de Mello: Meu conselho é se eduque, se você tem um receio pela sua saúde e integridade física ache maneiras de ajudar de casa , mas principalmente leia, se informe, escute histórias de como o racismo mata e abusa. Eu acredito veementemente que quando nós nos conscientizamos de tudo que o racismo destrói, o medo disso não mudar vence qualquer receio de estar nas manifestações. A questão se torna, como eu consigo achar paz em saber que eu nunca vou conseguir fazer o suficiente.

Eu estou tentando lidar com essa realidade, é uma experiência que nos torna mais humildes. É como ver que sua casa inteira está pegando fogo e você só pode apagar o fogo com um balde de água de cada vez, e você tem que se contentar com isso e confiar que seus vizinhos também pegarão seus baldes e que juntos teremos água suficiente para salvar a casa a tempo. Então o meu conselho é você que está lendo pegue o seu balde de água por mais amedrontador que o fogo seja. Porque fogo assim como ódio e ignorância, se alastram e destroem qualquer vizinhança. Nós precisamos parar de achar que o fogo da casa do lado não é problema nosso, ou que não é uma emergência para gente. Agora estamos falando de racismo contra pessoas negras, amanhã podemos estar falando sobre reforma nas políticas de imigração, ou das pautas indígenas. Se você quer que as suas questões sejam ouvidas, você tem que dar voz às questões das pessoas ao seu redor e entender que justiça e equidade sempre vêm para o benefício coletivo.



Antonia, Garra agradece de coração as suas palavras e disponibilidade. Garra acredita que a visibilidade política é fundamental para que o imigrante brasileiro seja parte do processo que constrói as políticas públicas que regem o imigrante nos EUA. Porém, a comunidade imigrante brasileira frequentemente se ausenta das oportunidades de participação política, como campanhas de projetos de lei, campanhas eleitorais,  campanhas de orçamento participativo, até mesmo o preenchimento do formulário do censo.  Isso resulta numa total invisibilidade política, onde a nossa população é regida por leis e políticas públicas sobre as quais nunca votamos, mas sofremos todo o impacto negativo delas.  Sua liderança, sua voz, e sua visibilidade radical nos inspira a lutar pela equidade racial e também a "ocupar nosso assento" nas mesas onde as decisões sobre as nossas comunidades estão sendo feitas. Obrigada por nos incentivar a pegar os baldes de água com você!











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