• gt1010

Empoderamento desde a raiz: a importância da coesão comunitária para empoderamento e bem estar.

Autora: Aline Estefam - voluntária, especialista em assuntos de comunidade

Hoje em dia, a imigração é um processo que quase intrinsecamente vem embebido em dificuldades e complicações. Além das barreiras legais do processo, existem também diversas acomodações socioculturais que um indivíduo que imigra deve passar. Porém, o senso de comunidade pode aliviar essas dificuldades e trazer mais bem-estar físico e emocional.

As barreiras da imigração não foram sempre existentes na história da humanidade. Como estudamos na escola, antigamente as pessoas transladaram com maior facilidade entre a Europa, as Américas e as Índias. Claro, sofriam dificuldades de translado e más condições sanitárias, porém, não existiam políticas de imigração, vistos ou qualquer outra dificuldade como as que temos hoje em dia. O dia onze de setembro de 2001, além de uma tragédia para a humanidade, representou uma nova camada de dificuldade para o estrangeiro nos Estados Unidos. O imigrante passou a ser visto como o “Outro” e a imigração passou a simbolizar perigos para a coesão social, já que aumentaria as diversidades étnicas e raciais (Cheong, 2007).

Nos dias atuais, após a crise do coronavírus, esse cenário piorou mais ainda. A pandemia, além de uma crise econômica e de saúde pública, acabou por desvelar estereótipos e prejuízos multiculturais. Manuela Pellegrino, por exemplo, estudante italiana investigando o tema em Harvard, notou o aumento do uso de chistes, ironia e sátira para diminuir a cultura de países (principalmente China e Itália) e como esse “simples” ato acabou por perpetuar relações de poder entre culturas e nações. Além disso, a crise teve efeitos nas políticas imigratórias, como a suspensão de entrada de indivíduos que apresentassem um risco, ou a tentativa de retirada do visto de estudantes, tendo em vista as aulas online. Ainda que tenham sido medidas protetivas, tiveram um grande impacto na comunidade imigrante – brasileira inclusive.

Além das inúmeras dificuldades legais que existem dentro do processo da mudança de país, potencializadas pelos fatores socioeconômicos, existem diversos fatores culturais. Adaptar-se a condições climáticas diferentes, a uma cultura diferente, ajustar-se a uma nova língua, a novas normas e práticas, entre outros fatores. Me lembro dos meus primeiros meses no país, quando não apenas eu, mas 35 colegas da Columbia University, também vindos de diversos países, conversávamos como era desafiador se adaptar e se comunicar em uma língua que não é a sua, em um clima diferente e com tantas discrepâncias culturais. Ademais, Joseph (2011) estudando 49 imigrantes brasileiros nos Estados Unidos relata que grande parte deles estavam em constante estado de estresse, ansiedade e mal-estar.

Para mitigar essa transição, é comum que grupos de imigrantes criem enclaves culturais, e que vivam próximos uns aos outros. Nesses enclaves, as instituições são geralmente desenhadas para servir aos interesses de uma certa comunidade, adequadas às suas culturas e sem barreiras linguísticas. Assim, temos na cidade de Nova York bairros insulares latinos (como Washington Heights, onde aproximadamente 70% dos residentes são de origem latina, de acordo com o U.S. Census Bureau), Chineses (como Chinatown, no qual quase a totalidade da população tem descendência chinesa, de acordo com o Departamento de Youth and Children Development) e várias outras nacionalidades. A insularidade é tanta que, em pesquisas que eu realizei nestes dois bairros, mais de 50% das pessoas entrevistadas (n=52 em Washington Heights e n=25 em Chinatown) não falavam inglês. O museu da cidade de Nova York, na sua exposição “Who Are We” oferece um panorama de quais são esses enclaves e quais línguas predominam em cada bairro de Nova York.

A comunidade brasileira apresenta um contexto distinto. Apesar de haver entre 150,000 e 200,000 brasileiros vivendo na cidade, não existe um verdadeiro enclave urbano, e a comunidade se encontra espalhada por diversos bairros da cidade. Ainda que haja um entendimento de que Astoria é um bairro predominantemente brasileiro, apenas 15 dos 106 (14%) membros da comunidade brasileira recentemente consultada vivem no bairro. Pelo contrário, existe um número enorme de brasileiros vivendo em outros bairros do Queens, Manhattan ou em outras cidades próximas a Nova York. Por essa falta de um local de pertencimento, brasileiros em Nova York foram chamados por Margolis de “invisible minorities” (minorias invisíveis), em 2009.


Ainda que exista uma correlação negativa entre distância física e coesão comunitária (Boessen, 2014), resta investigar se existe essa conexão dentro da comunidade brasileira (ou o que podemos fazer para forja-la).

O termo ‘senso de comunidade’, primeiramente usado por McMillan e Chaves em 1986 descreve um sentimento de pertencimento psicológico, influência, integração, completude de necessidades e conexões emocionais. Esse sentimento tem uma correlação direta entre denúncias e impedimento de abusos infantil (Maguire-Jack & Showalter, 2016) ou na intervenção do observador em casos de abusos em relacionamentos (Lucero, Roark, Patton, 2018).

No caso de imigrantes e minorias, esse senso também tem um papel fundamental, se relacionando com níveis de estresse e saúde mental e podem mitigar o sentimento de exclusão sociais e insatisfação geralmente presente em imigrantes (Rios, Aiken, Zautra, 2012; Dassopoulos, Monnat, 2011). Porém, a literatura sugere que ainda existe uma falta de coesão da comunidade dentro da comunidade brasileira. Moura, Calixto e Castro (2017), por exemplo, encontraram 1/3 da população brasileira com sintomas de depressão, evidenciado por um sentimento de isolamento social e falta de comunidade. Holmes e Marcelli (2020) também desenharam conclusões entre estresse psicológico e senso de comunidade, estudando as dores do isolamento e baixa remuneração comuns entre membros da comunidade brasileira nos Estados Unidos.

Essa falta de senso de comunidade pode ter se dado por diversos fatores. Primeiramente, por uma falta de um enclave urbano, como mencionado acima. A falta de um lugar físico de pertencimento dificulta a criação de uma comunidade coesa e empoderada. Porém, mais grave, existe uma falta de informações sobre a comunidade brasileira. Como a Garra vem advogando desde Novembro e o Cidadão Global desde 2010, existe uma falta de dados do censo em relação a comunidade brasileira vivendo em Nova York. Além disso, uma despretensiosa busca no Google gerou resultados que evidenciam essa falta de informação como perguntas em fóruns abertos sobre “onde encontrar brasileiros”, ou se “existem brasileiros em Nova York”. Essa busca também informou uma discrepância de dados em relação a quantidade de brasileiros vivendo na cidade, os locais onde brasileiros vivem, etc.


Outros fatos relevantes para a criação de uma comunidade brasileira coesa podem ser o status imigratório dos residentes da cidade, que podem levar a medos de se envolver com qualquer assunto comunitário, ou o sentimento de brevidade da estadia no país. Como relatou Margolis, grande parte dos brasileiros pensa em voltar para o país de origem após conseguir juntar algum recurso em Nova York.

Qualquer que seja o motivo, é essencial agir e aumentar esforços no alcance comunitário, sensibilização, e providenciar dados e aconselhamento em português, adaptado aos imigrantes brasileiros. Uma comunidade fortalecida pode garantir o controle, dar voz política a comunidades e auxiliar com mudanças em relações de poder.


About/Sobre Aline Estefam:

Ali is a multilingual community expert, urban planner and strategist, with experiences across continents and proven records of shifting systemic power dynamics through a people-centered approach to planning and community development.


She worked for nearly a decade with diverse, multicultural populations in Latin America, Spain, Africa, and the US. She currently conducts and strategizes community engagement for large scale urban plans in New York City; is a community issues advisor at Garra – a nonprofit that advocates for the economic development of Brazilian immigrant women living in New York; is a fellow and head of the NYC Chapter at the Center for Conscious Design, where she investigates the intersections between design, equity and culture; and a fellow at Lemann Foundation, where she was recognized among the talents for social development. 


Ali holds a Master in Urban Planning from Columbia University, focused on Community and Economic Development, and wrote her thesis about the role of conflicts to enable community participation. She also holds a professional degree in Architecture and Urbanism from the University of Sao Paulo (Brazil) and is a Specialist in City Management and Revitalization from the University of Castilla La Mancha (Spain).


Ali é uma especialista multilíngue em comunidades, planejadora e estrategista urbana, com experiências em diversos continentes e resultados expressivos de alteração da dinâmica de poder sistêmico por meio de uma abordagem centrada nas pessoas para o planejamento e o desenvolvimento comunitário.


Ela trabalhou por quase uma década com diversas populações multiculturais na América Latina, Espanha, África e os EUA. Atualmente, ela conduz e cria estratégias para o envolvimento da comunidade em planos urbanos de grande escala na cidade de Nova York; é consultora de questões comunitárias na Garra - uma organização sem fins lucrativos que defende o desenvolvimento econômico de mulheres imigrantes brasileiras que vivem em Nova York; é fellow e representate da filial de Nova York do Center for Conscious Design, onde investiga as interseções entre design, equidade e cultura; e fellow da Fundação Lemann, no qual foi reconhecida entre os talentos para o desenvolvimento social.


Ali tem mestrado em Planejamento Urbano pela Columbia University, com foco em Comunidade e Desenvolvimento Econômico, e escreveu sua tese sobre o papel dos conflitos para permitir a participação da comunidade. Ela também possui um diploma em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (Brasil) e é Especialista em Gestão e Revitalização de Cidades pela Universidade de Castilla La Mancha (Espanha).

21 views

+1 718-619-8529

  • Instagram
  • Facebook Social Icon

©2020 by Garra BR.